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Etarismo: a idade se torna argumento

  • Foto do escritor: Martin Ricardo Schulz
    Martin Ricardo Schulz
  • 9 de jun.
  • 5 min de leitura

















Muitas vezes sentimos que tudo está normal demais. E nessas ocasiões podemos ser surpreendidos com algo que nos leva a refletir: Certo dia, minha advogada marca uma conversa sobre a possibilidade da minha aposentadoria. Confesso que senti uma sensação estranha de obsolescência. Foi um encontro técnico, burocrático, como parte de uma rotina administrativa, embora a palavra aposentadoria carregue consigo um peso simbólico difícil de ignorar. Como assim, obsolescência?

Nessas horas costumo me sentir jovem no pensamento, inquieto nas ideias, motivado por projetos transformadores, talvez alguns mecanismos de defesa. Meio inconformista, não me reconheço nessa imagem silenciosa que muitas vezes acompanha a noção de final de carreira. E desde aquele dia venho refletindo sobre a trajetória percorrida ao longo de mais de trinta anos de vida profissional.

Difícil mesmo foi evitar que no caminho de volta para casa, essa reflexão continuasse: Lembrei dos tempos de escola, da formação como piloto, das experiências na selva, de quando ainda imaginava o mundo como um horizonte aberto. Lembrei da primeira faculdade, do casamento, do plano de carreira que segui disciplinadamente até o fim e da depressão velada que se seguiu, embora depois eu tenha decidido reconstruí-lo em outro formato, enfim, dos orgulhos.

Recordei as muitas viagens, os projetos conduzidos em diferentes países, os meus próprios vinhos, os mestrados realizados por aí, as muitas turmas de alunos, a família exemplar que construí. Nesse momento lembrei também de uma conversa recente com uma de minhas filhas: Disse a ela que “se Deus decidisse me chamar naquele momento, eu estaria pronto. Afinal, havia feito tantas coisas na vida”. E de repente, algo me interrompeu por dentro.

Aquela afirmação parecia contradizer o estado atual do meu espírito. Talvez um resto de sofisma emocional, incompatível com a postura mais pragmática e positiva que venho cultivando, fruto de um saudável processo terapêutico, entre outras coisas. A verdade é que o tempo passa rápido demais. E na minha percepção ele costumava mostrar o variômetro em up.

Ao longo da minha carreira como executivo, empreendedor, professor e consultor, vivenciei tantas experiências interessantes, que acabei contaminado por aquilo que daria para chamar de viés da fartura, ou a sensação de que novas oportunidades existem, de que problemas podem ser resolvidos e de que o futuro, mesmo incerto, sempre contém possibilidades. Sim, eu sei que é a terapia. Mas curiosamente, eu tenho conversado de forma mais expansiva com pessoas das minhas relações profissionais e tenho percebido que muitos empresários vivem atualmente o oposto: um viés de escassez, talvez. Pois bem, esse estado mental pode ser o desdobramento de múltiplos fatores.

Vivemos hoje em um ambiente de profunda anomia informacional. Todos os dias somos expostos a uma avalanche de dados, opiniões, tendências e diagnósticos. Recebemos muito mais informações do que somos capazes de interpretar. Somos pressionados a adaptar organizações à transformação digital e sucessivas ondas tecnológicas. Logicamente muitos estão cansados. Como se isso tudo não bastasse, frequentemente somos aconselhados por especialistas cuja autoridade intelectual é gerada por prompts como raciocínios frágeis e narrativas sedutoras, mas pouco fundamentadas.

Nesse ambiente de ruído permanente, a idade experiencial, que deveria funcionar como bússola, passou a ser vista com certa refração. Logicamente o valor agregado trazido pela vivência custa mais caro, precisa ser recompensado e reconhecido com mais. E é nesse ponto que surge um fenômeno cada vez mais visível no mundo empresarial: o etarismo.

Ambidestria do preconceito

O etarismo pode ser caracterizado como atribuir valor ou desvalor a alguém simplesmente em função da idade. No ambiente empresarial, isso costuma ocorrer de maneira particular e paradoxal.

Profissionais mais experientes passam a ser vistos como caros, lentos ou supostamente resistentes à inovação. Ao mesmo tempo, profissionais muito jovens enfrentam a dificuldade oposta: são considerados inexperientes demais para assumir responsabilidades relevantes.

Assim, a idade torna-se um argumento circular: Se alguém é jovem demais, falta experiência, mas custa menos. Se é maduro demais, presume-se excesso de experiência. Em ambos os casos, perde-se aquilo que deveria ser o verdadeiro critério de avaliação: a capacidade de gerar valor, o ativo profissional.

O ambiente empresarial costuma falar do etarismo como um problema enfrentado por profissionais maduros. Essa percepção é de certa forma verdadeira, mas incompleta. O etarismo é, na realidade, ambidestro.

Ele atua contra profissionais seniores que carregam décadas de experiência, mas também contra jovens que, sem oportunidades concretas de atuação, não conseguem adquirir justamente a experiência que o mercado exige. Cria-se assim um paradoxo curioso: empresas reclamam da falta de profissionais qualificados, mas frequentemente deixam de criar as condições necessárias para que essa qualificação se forme.

O problema não está na idade. Está na incapacidade das organizações de integrar diferentes gerações dentro de um mesmo ecossistema produtivo, muitas vezes devido à falta de preparação das lideranças na lida intergeracional. Essa é uma grande oportunidade corporativa para desenvolver um sistema organizado de aprendizagem e fortalecimento da cultura empresarial. É um dos desafios em que mais tenho trabalhado nos últimos anos.

Experiência e renovação

A filosofia oferece uma trilha interessante para compreender essa tensão: desde a antiguidade, pensadores como Aristóteles refletiram sobre a natureza do conhecimento prático. Para ele, a sabedoria prática, ou aquilo que chamou de phronesis, não nasce apenas do estudo, mas da experiência acumulada ao longo do tempo. Experiência essa que permite reconhecer padrões, avaliar consequências e interpretar situações complexas com maior profundidade. Por outro lado, a juventude traz consigo algo igualmente valioso: energia intelectual, abertura para novas ideias e menor apego a estruturas estabelecidas.

Uma organização inteligente deveria então combinar essas duas dimensões: A experiência oferece profundidade e a juventude oferece renovação. Mas quando uma empresa rejeita qualquer uma dessas dimensões, empobrece sua própria capacidade de adaptação.

Isso me fez lembrar de uma vivência num processo de outplacement: paguei muito caro por um contrato de 12 meses de prospecção para recolocar-me. Após meses de entrevistas, escutei com frustração o seguinte: “O teu perfil é muito forte para conseguirmos prospectá-lo, pois nenhum gestor vai querer alguém na empresa que seja mais qualificado que ele e que saiba mais do que ele”. Por certo que isso foi dito quase ao término do período de contrato. Projetei então que as empresas que precisam de gente qualificada estariam competindo não com os diferenciais competitivos de mercado, mas sim com o ego do administrador.

O valor da travessia

Talvez o maior equívoco do etarismo seja tratar a idade como um estado estático. Na realidade, a vida profissional é uma travessia. Cada fase oferece contribuições distintas.

Os jovens carregam a ousadia de quem ainda não conhece todas as limitações do mundo e, para tanto, precisam de políticas claras de trabalho. Os profissionais maduros carregam a serenidade de quem já enfrentou essas limitações e aprendeu a navegar por elas e, portanto, trazem consigo a tranquilidade em ter a vida pessoal já organizada pelo tempo.

Contudo, nenhum desses atributos é dispensável. Na verdade, quando bem combinados, formam aquilo que organizações verdadeiramente inteligentes procuram cultivar: continuidade estratégica com renovação permanente.

Depois de refletir sobre tudo isso, percebi algo curioso: O que realmente envelhece não são as pessoas. O que envelhece são as ideias que deixam de dialogar com a realidade. Existem jovens profundamente conservadores e profissionais maduros extraordinariamente inovadores. Da mesma forma, existem jovens brilhantes e profissionais experientes acomodados.

A idade, por si só, explica muito pouco. No fim das contas, talvez a pergunta mais relevante não seja quantos anos alguém tem, mas algo muito mais simples: essa pessoa ainda continua aprendendo?

Enquanto essa resposta for positiva, não existe aposentadoria intelectual possível. Existe apenas aquilo que sempre moveu o mundo: a permanente disposição de compreender, construir e transformar o futuro.


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